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fotos: Elenize Dezgeniski

A ação continuou na calçada da Caixa Cultural, quando estaciona um carro vermelho e deles saltam duas loiras, obviamente oxigenadas, pelas atrizes Giorgia Conceição e Marina Nucci. Elas ligam o som, abrem as portas, ensaboam a lataria com seus corpos voluptuosos, esguicham a mangueira entre si e no objeto do desejo, causando euforia em parte dos pedestres-espectadores que preenche as escadarias do teatro, a calçada e uma faixa do asfalto, todos fixados no lava-rápido improvisado (o fetiche combinava com aquela noite de sábado em que a mídia nacional veiculou à beça o encerramento de mais um Salão do Automóvel na capital paulista, onde o atropelamento de cuca tem trânsito livre).
O terceiro e último segmento precipita do alto da fachada de um prédio histórico do outro lado da rua, a Capela Santa Maria. Uma terceira atriz, Léo Glück, encarna a Mulher Maravilha (para completar o time de heróis saudados na Mostra) e desce pendurada em cabo-de-aço. Sob a mira de um canhão de luz, ela traz a reboque outro boneco inflável. Em certa passagem, o objeto de plástico cai sobre os fios de alta tensão, para surpresa inclusive dos protagonistas, aliviados por não ter ocorrido nenhum incidente. Quando alcança o chão, a Mulher Maravilha corre para o carro vermelho, onde as duas outras loiras já estavam embarcadas e o veículo sai em disparada.
O ato transcorreu assim, com sobressaltos que a própria Silenciosa não poderia dominar, sob risco de conspirar contra a concepção a que se atreveu, e o deslize em não cuidar da incorporação no mínimo artificiosa de um estranho no ninho. Dentro do caráter efêmero das artes cênicas, Los juegos provechosos verte especificidades que o tornam ainda mais único. Não se sai indiferente ao partilhar esse experimento que provavelmente não será mais visto ao vivo, ratificando a potência desse núcleo para eternizar alguns minutos da vida, real ou inventada, um limite tênue.
Por Valmir Santos.






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Por Angelo Cruz

Antes de tudo é necessário colocar às claras o termo “direção de movimento”, muitas vezes confundido com preparação corporal ou coreografia, que são categorias diferentes. Na proposta que coloco aqui, a função do diretor de movimento é trabalhar suas inserções a partir do corpo dos atores e atrizes, de seu gestual e movimentos. A estrutura de marcação cênica e quaisquer escolhas de ocupação espacial feitas pelo encenador não serão alteradas a partir do meu trabalho (a não ser que esta seja uma escolha deste). O que faço é trabalhar conceitualmente a ocupação dessa estrutura pelos corpos presentes em cena. O trabalho a partir do corpo e para o corpo em cena é um trabalho em si só e não pretende apenas ilustrar um sistema de ações e marcações teatrais. A partir deste entendimento podemos então esboçar uma proposta para Jesus vem de Hannover.
O conceito de corpo
Em meus estudos tenho procurado definir, em primeiro lugar, um conceito de corpo ao qual estou aplicando as inserções, mesmo porque, esse é o primeiro passo para que este corpo exista. Lançando mão do neologismo, estudo novo da linguagem e como as associações cognitivas acontecem na rede mnemônica do indivíduo, e de conceitos proeminentes da física quântica que definem matéria como uma quantidade muito condensada de energia, surge para mim uma nova idéia do que pode ser o corpo. O movimento e o gestual são ações do corpo em relação ao espaço-tempo. Então, estão diretamente ligados à percepção que o indivíduo tem desse espaço-tempo, passando primeiro pela sua cognição e depois pela sua própria definição de realidade, ou de como foi educado para pensar este conceito. Para mim, aquilo que chamo de corpo expandido, é o conjunto das percepções espaço-temporais do indivíduo e de sua potencialidade interventora no ambiente. Isso engloba o corpo conhecido como material, com certeza, mas, sobretudo, o corpo intencional do pensamento, ou seja, o corpo que o indivíduo pretende ser e, portanto, é. Trabalhar o pensamento e a matéria que compõe nossos corpos para que se construam ações espaço-temporais mais complexas é minha proposta de presença cênica em Jesus.
Jesus vem de Hannover oferece corpos treinados por técnicas de Krav Magá, Ninjitsu e Aikidô, calibrados pelo sistema Body Pump (qualidade garantida Body Systems corporation – marca registrada – o melhor resultado no menor intervalo de tempo) e com muito mais espaço interno que os similares do mercado. Esses corpos não possuem apenas boa performance: estão prontos para matar. Corpos vigorosos, atléticos e inflamáveis, com precisão e viscosidade nos movimentos cilíndricos e espirais. Movidos a álcool e/ou gás natural, eles rendem mais em empreitadas longas, aderem nas curvas e obedecem a comandos de voz em 34 idiomas (observar legendas por região). Com excelente articulação mandibular, estão aptos a discutir desde questões simples do dia a dia até sistemas matemáticos complexos e análise lingüística avançada. Altamente tropicais, suportam temperaturas elevadas e situações adversas de respiração e pronúncia verbal projetada, eliminando nesse processo apenas gás carbônico e água. O painel é arrojado e sensível ao toque muito leve, porém resistente ao vigor do toque viril, comportando-se bem na presença de espadas (verificar modelo). Bem apresentáveis em penteados modernos, esses corpos farão do seu entretenimento uma arte! A quantidade de pêlos é opcional.

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A Companhia Silenciosa foi fundada em início de 2002 por Giorgia Conceição, Henrique Saidel e Léo Glück – três artistas com influências distintas e um interesse comum: criar um ambiente de pesquisa e produção artística do sul do Brasil, a partir de um claro projeto de continuidade de sua linguagem. Desenvolve-se a partir de vertentes que problematizam fisicalidade e virtualidade, visualidade e relação entre arte e espectador, criação de ficções e fruições, estudo de linguagem e estruturações dramatúrgicas alternativas, bem como relativiza tópicos recorrentes como relações de poder, zonas autônomas - temporárias ou não -, gênero, sexualidade, artificialidade, robótica e futuro. Destaca-se, também, no trabalho da Companhia Silenciosa, o intenso flerte com linguagens artísticas e outras mídias como artes visuais e cibernéticas, literatura, performance art, dança, vídeo e música.
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