Folha de São Paulo, Ilustrada, 31 de março de 2008. Por Valmir Santos.




"Um destaque é 'Jesus Não Vem de Hannover' [sic],
a fragmentada e exasperada criação da cia. Silenciosa,
que transborda em citações e excitações globalizantes,
sob dramaturgia de Léo Glück
e direção sempre inquieta de Henrique Saidel."


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'Jesus Vem De Hannover' no olhar da crítica especializada

"Onze da noite, hora de ir ao Fringe, no teatro da Federal, com a Mostra Novos Repertórios, mais experimental e, em geral, com melhor produção. Era “Jesus Vem De Hannover”, peça sem linearidade, antes seqüência aleatória de cenas em que um ou outro personagem se repete, mais pela presença dos atores que por nexo. Foi exasperante durante parte do tempo, mas a direção promete. Sabe o que faz, ergue cenas com invenção visual e dramática que faz lembrar Zé Celso ou Gerald Thomas. E é um menino, aliás, ele operou em diálogo contínuo com o palco através da luz, do som, da projeção e até de uns aquecedores móveis que resumiam a ironia que escorreu do espetáculo. Poderia ter programa para identificar personagens e atores, alguns muito bons."

Nelson de Sá

Cacilda Blog de Teatro
http://www.cacilda.folha.blog.uol.com.br

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'Jesus Vem De Hannover' e 'DUCK and HEAD' no Festival de Curitiba 2008




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((((( PLUS )))))
A Companhia Silenciosa apresenta novamente


DUCK and HEAD
A BELÍSSIMA ESQUIZOFRENIA DOS QUE AMAM DEMAIS
Dramaturgia de Léo Glück e Ricardo Nolasco
Encenação de Léo Glück
Cast: Giorgia Conceição e Ricardo Nolasco (foto)
Onde: TEUNI - UFPR (Prédio Histórico)
Quando: Dia 24.03.2008 às 15 Horas
Mostra Novos Repertórios - Festival de Curitiba 2008




A truculência.
É amor também.

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EM CARTAZ



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ESTRÉIA de GALA ((((( Jesus Vem De Hannover

De novo Ocidente versus Oriente, quando isso irá acabar?



Em Jesus Vem De Hannover, a desistência da vida é a única condição humana laudável. Em uma obra cujo sentido está para fora do que se vê, é reconfortante saber que o problema, caso exista, não está em nós e sim no eclético atavismo que nos escolhe a seu bel-prazer.
O globo nos aquece e a franqueza brinca
. Mil pátrias e uma única bandeira: a rota bandeira da fronteira.Com ligeiro apego pelo afeto não dado, a sorte certamente não está do nosso lado, porque o humano é a célula-mãe desta obra em cujas profundidades não há meios de se mergulhar.
Somente sente e esquente!






Jesus Vem De Hannover,
de léo glück,
direção de henrique saidel,
estréia de gala dia 14 de fevereiro de 2008,
quinta-feira, 21hs.,
teatro novelas curitibanas,
rua carlos cavalcanti, 1222,

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atores e atrizes de jesus

CONCEITOS PARA O TRABALHO DO ELENCO
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O elenco de JESUS VEM DE HANNOVER é composto por Giorgia Conceição, Léo Glück, Angelo Cruz, Ana Ferreira, Andrew Knoll e Wagner Correa - grupo responsável pela criação dos últimos espetáculos e leituras dramáticas silenciosas, como Open House, Iracema 236ml, Parasitas, El Murciélago Desenfrenado, Mecânica e Jesus Vem de Hannover (leitura).
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Utilizamos o conceito de Kitsch, empregado pela Encenação na articulação de todos os elementos da obra. O atuante como elemento tendencioso, deflagrando construções de sentido e sendo enredado por outras. O kitsch da interpretação aparece na tênue fricção entre ator e personagem. Os dois estão a todo momento em cena, resvalando-se, num constante jogo de semi-ocultamento. Não se trata do verfremdungseffect brechtiano propriamente, onde encontramos momentos específicos de rasgo da ficção e explicitação retumbante da presença do ator em cena (buscando, primordialmente, a quebra da empatia direta do personagem com a platéia para ressaltar a proposta racional e analítica da peça): partimos desse conceito para alcançar um estado mais sutil e detalhista, incitando ironicamente o espectador, surpreendendo-o, malicioso. Um continuum que se apresenta em todo instante para e com o espectador, gerando novos olhares, novas percepções da mesma ficção, sem quebrá-la, e sim atingindo o que chamamos de desgaste. Desgaste da personagem e da figura do ator a um só tempo, explicitando metalingüisticamente as ferramentas da encenação ao espectador. Kitsch e metalinguagem re-elaborando ironicamente o estranhamento postulado pelo encenador alemão – uma atualização necessária.
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O que é e o que não é: o que parece ser. O que se esconde e se apresenta, falsamente, como outro. O atuante seduz a platéia, adocicado, atraindo e canalizando as energias. E nesse seduzir, nessa conquista, vislumbra-se o oco, o não-ser, o ser outro, o ser ator. O bizarro que brota da beleza, e vice-versa. Comportamento kitsch, em um ser – cênico – que não é outra coisa senão kitsch. A ironia, a malícia, a sem-vergonhice do ator em cena, que engana e compartilha esse enganar: a platéia cúmplice de seu próprio simulacro. O que se diz não é exatamente o que se diz, nada é exatamente o que parece ser. Interpretação camuflada.
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O atuante está em cena com o espectador: ambos são a cena. A presença, a consciência da presença cênica é fundamental para o atuante. Ele é o re(a)gente do fenômeno teatral enquanto presentificação, enquanto realidade. Porém, isso não pode gerar uma histeria por parte do elenco. O atuante é responsável pela sua própria madureza cênica, e é seu papel contracenar em mão dupla com a platéia.
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O resultado que buscamos não é um elenco uno, ingenuamente homogêneo. Priorizamos a individualidade do atuante, que utiliza a sua carga intelectual e corporal pessoal para compor a cena – e não simplesmente o personagem. O processo incentivará a geração de um ambiente caótico, torvelinho de idéias e sensações (cíclico, pensamentos e ações em rede), que, aos poucos, materializará o espetáculo.
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de hannover para curitiba


jesus vem de hannover

um show de imagens para você!
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de léo glück
direção de henrique saidel
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estréia dia 14 de fevereiro de 2008.
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quinta-feira, 21h.
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teatro novelas curitibanas.







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FELIZ 2008


A Companhia Silenciosa é o dilúvio após o que tudo recomeça.


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Jesus vem de Hannover

PROPOSTA PARA DIREÇÃO DE MOVIMENTO

Por Angelo Cruz





Antes de tudo é necessário colocar às claras o termo “direção de movimento”, muitas vezes confundido com preparação corporal ou coreografia, que são categorias diferentes. Na proposta que coloco aqui, a função do diretor de movimento é trabalhar suas inserções a partir do corpo dos atores e atrizes, de seu gestual e movimentos. A estrutura de marcação cênica e quaisquer escolhas de ocupação espacial feitas pelo encenador não serão alteradas a partir do meu trabalho (a não ser que esta seja uma escolha deste). O que faço é trabalhar conceitualmente a ocupação dessa estrutura pelos corpos presentes em cena. O trabalho a partir do corpo e para o corpo em cena é um trabalho em si só e não pretende apenas ilustrar um sistema de ações e marcações teatrais. A partir deste entendimento podemos então esboçar uma proposta para Jesus vem de Hannover.



O conceito de corpo

Em meus estudos tenho procurado definir, em primeiro lugar, um conceito de corpo ao qual estou aplicando as inserções, mesmo porque, esse é o primeiro passo para que este corpo exista. Lançando mão do neologismo, estudo novo da linguagem e como as associações cognitivas acontecem na rede mnemônica do indivíduo, e de conceitos proeminentes da física quântica que definem matéria como uma quantidade muito condensada de energia, surge para mim uma nova idéia do que pode ser o corpo. O movimento e o gestual são ações do corpo em relação ao espaço-tempo. Então, estão diretamente ligados à percepção que o indivíduo tem desse espaço-tempo, passando primeiro pela sua cognição e depois pela sua própria definição de realidade, ou de como foi educado para pensar este conceito. Para mim, aquilo que chamo de corpo expandido, é o conjunto das percepções espaço-temporais do indivíduo e de sua potencialidade interventora no ambiente. Isso engloba o corpo conhecido como material, com certeza, mas, sobretudo, o corpo intencional do pensamento, ou seja, o corpo que o indivíduo pretende ser e, portanto, é. Trabalhar o pensamento e a matéria que compõe nossos corpos para que se construam ações espaço-temporais mais complexas é minha proposta de presença cênica em Jesus.



Corpos Treinados Recebem Jesus

Jesus vem de Hannover oferece corpos treinados por técnicas de Krav Magá, Ninjitsu e Aikidô, calibrados pelo sistema Body Pump (qualidade garantida Body Systems corporation – marca registrada – o melhor resultado no menor intervalo de tempo) e com muito mais espaço interno que os similares do mercado. Esses corpos não possuem apenas boa performance: estão prontos para matar. Corpos vigorosos, atléticos e inflamáveis, com precisão e viscosidade nos movimentos cilíndricos e espirais. Movidos a álcool e/ou gás natural, eles rendem mais em empreitadas longas, aderem nas curvas e obedecem a comandos de voz em 34 idiomas (observar legendas por região). Com excelente articulação mandibular, estão aptos a discutir desde questões simples do dia a dia até sistemas matemáticos complexos e análise lingüística avançada. Altamente tropicais, suportam temperaturas elevadas e situações adversas de respiração e pronúncia verbal projetada, eliminando nesse processo apenas gás carbônico e água. O painel é arrojado e sensível ao toque muito leve, porém resistente ao vigor do toque viril, comportando-se bem na presença de espadas (verificar modelo). Bem apresentáveis em penteados modernos, esses corpos farão do seu entretenimento uma arte! A quantidade de pêlos é opcional.





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25/11 PARASITAS no Teatro Para o Povo

..para quem ainda não viu..
...e para quem não se cansa de ver...

















PARASITAS PARASITAS PARASITAS
PARASITAS PARASITAS PARASITAS
PARASITAS PARASITAS PARASITAS


texto de marius von mayenburg

encenação de henrique saidel



teatro josé maria santos

teatro josé maria santos

teatro josé maria santos


(rua 13 de maio, pertinho do largo da ordem)



dia 25/11 domingo

dia 25/11 domingo

dia 25/11 domingo


11h00

11h00

11h00

!ENTRADA FRANCA!





Apareçam!!!














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A truculência. É amor também.


A mera sinopse de uma vida dificilmente inclui os elaborados conflitos e as complicadas tensões da existência.
O marido fora congelado.
Na hora da revolução, um movimento qualquer começa.
Quem é o novo chefe?
O simplório grasnido da mulher não será abafado dessa vez. Não dessa vez.
Mesmo que deva, finalmente, ser internada pela esquizofrenia dos que amam demais.
DUCK and HEAD não deixa de ser uma autobiografia quase literal: sofra você as conseqüências no interior estreito do seu peito.
Companhia Silenciosa apresenta
DUCK and HEAD
Dramaturgia: Léo Glück e Ricardo Nolasco
Encenação: Léo Glück
Com: Giorgia Conceição e Ricardo Nolasco


Quando: 18/11/2007 (dom) às 19h.

Teatro da Caixa - Rua Conselheiro Laurindo, 280.

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!LADIES and GENTLEMEN!

Yes, Our Jesus Is Coming Right From Hannover!



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a nova

e curta

temporada

da

companhia silenciosa
















06 a 16 de setembro

quinta a domingo 20h00

teatro cleon jacques

(parque são lourenço)

ingresso: 01kg de alimento não -perecível





informações
nos fones 8426-5828 e 8408-8805
e no e-mail
companhiasilenciosa@hotmail.com










não ousem perder
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somos todos tão ingênuos...





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el murciélago que se desenfrena

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Companhia Silenciosa apóia e participa: CIASENHAS ACIONA!






Nesta quarta-feira, dia 13/06, às 19h, no Teatro Celeiro.
(Praça Tiradentes, 106. Galeria Pinheiro Lima. Antigo Teatro Edson Bueno)

Entrada franca.

Henrique Saidel participará do debate "A Cena Contemporânea".

Participarão da mesa, também: Maurício Vogue, Olga Nenevê e Walter Lima Torres.

Confira!





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A MAIS NOVA LEITURA DRAMÁTICA DA COMPANHIA SILENCIOSA!

EL MURCIÉLAGO DESENFRENADO
estruendo de Léo Glück

A história da Inglaterra, como a de tantas outras terras, é um terreno intrincado de história e lenda. A história do mundo, como cartas sem poesia, como flores sem perfume e pensamentos sem imaginação, seria algo muito seco sem suas lendas; e muitas delas, embora descartadas cem vezes pelas provas, merecem ficar pelo que são.



Atenção: Este espetáculo é uma obra de mentalidade enferma.



Dia> 03 de junho de 2007.
Hora> 19.00.
Local> SESC Água Verde.
Endereço> Av. República Argentina, 944.
E-mail> aguaverde@sescpr.com.br Fone: (41) 3342-7577.
Info>(41)99959198/(41)84088805


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A ARMA BRANCA DA SAPIÊNCIA. Guilhotina, Gerúndio e nós: cabeças rolantes.



Por Henrique Saidel.



Cabeças cortadas. Pernas cortadas. Braços cortados. Pensamentos cortados. Almas cortadas. Sangue, esperma, saliva, humores, clara e gema. A lâmina desce, irrefreável e irretocável, e perpetra a carnificina. Pedaços humanos são destrinchados e distribuídos deliciosamente entre todos. Ali, sentado, num falso repouso, um homem, um corpo estranho apoiado na estática mesa. É Hans Silva (Bacharel em Semiótica Analítica pela USP, com especialização na Oxford University em Análise de Níveis de Consciência, Doutor pela UNICAMP em Sociologia Complexa Simbiótica, com especialização em Metanálise do Conhecimento), o carrasco/vítima que lecionará e dançará para nós. O cadafalso está preparado.
Guilhotina não é arma de destruição em massa. Guilhotina é arma de destruição individual. Um por um. Guilhotina é espetáculo, praça pública, multidão de curiosos, cabeça do cesto, corpo esfastelado. Um corpo e uma cabeça diante da multidão, espetáculo da morte, da aniquilação, da crueza e da beleza da morte. A lâmina separa o corpo da cabeça, que ainda tem alguns segundos de consciência – preciosos instantes de epifania. Seria guilhotina uma arma branca?
Não estamos diante de um simples espetáculo de teatro, dentro da programação de um festival qualquer, apresentado em uma sala de aula qualquer. Sequer estamos diante de algo. Estamos sim inseridos e absorvidos em uma situação, em um acontecimento artístico único e inapelável. O ator/professor/xamã Maikon Kempinski (Maikon K) transmuta-se em Hans Silva, e nós, espectadores/alunos/fiéis, também fazemos parte do espetáculo. Espetáculo da crueza e da beleza da morte.
O que se passa dentro do auditório/sala de aula da Reitoria da UFPR em pouco mais de uma hora é uma seqüência hermética de cenas em que o mestre em sociologia – ciência da ilusão, arqueologia do câncer – e em outras tantas ciências apresenta e vivencia sua concepção de mundo. Concepção que trai a si mesma, que cria seus próprios monstros, seu próprio colapso. A trajetória cíclica do nascimento à morte, da ignorância à ilustração, do desgosto ao prazer. Extremos que se tocam e se fundem – a morte é o nascimento, a ilustração é a ignorância, o prazer é o desgosto.
Além dos textos, complexos, recheados de críticas irônicas ao academicismo cartesiano limitado, a dramaturgia verbal/sonora é composta por cantos (hinos) entoados à capela pelo ator. E o que num primeiro momento poderia soar forçado, canastrão (tanto numa tentativa virtuosística, quanto numa relação pseudo-ritualística), impõe-se como força pulsional, deflagradora e potencializadora de conflitos e sensações. A música brota da garganta e do peito monstruosos de Maikon e ressoa violenta na pele e nos sentidos de todos que ouvem. A invocação xamânica de seres e elementos transcendentes é confrontada com tiradas irônicas implacáveis – estrutura que dá força à dramaturgia.
Os elementos de cena são econômicos, porém contundentes. Uma grande e pesada mesa de madeira, que, ao mesmo tempo em que serve de apoio/barreira/proteção, é manipulada e sacudida vorazmente durante toda a peça. Um cesto de lixo vermelho, comum, extremamente comum, que aparece despretensioso num canto da sala, mas que carrega em si objetos e significações nada sutis. Uma tela de projeção que desce e sobe eletronicamente, suavemente, marcando uma ruptura trágica e debochada no plano físico e real da performance. Um retro-projetor, onde o professor Silva desenha uma pueril e sádica paisagem. Um quadro negro onde são escritas e apagadas mensagens de variáveis sentidos. Aqui, todos os elementos são os de uso estrito da persona Hans Silva – opção que dialoga muito bem com o aparente barroquismo do roteiro.
A construção (e manutenção) corporal também é item de grande destaque na montagem. O corpo é vivo, respirante e transpirante, enraizado no presente. Um corpo sem passado e sem futuro, um corpo real. A partitura apresentada é precisa, rica em detalhes, ela acompanha e pensa o texto falado. Elemento dramatizante, o trabalho corporal amarra os textos, músicas e manifestos ao universo do teatro – universo da ação, da presentificação. A dança de um corpo que se coloca como mais um signo (ou seria símbolo?) do espetáculo. Multi-paisagem de sentidos.
O ator coloca-se, então, como regente máximo (não necessariamente plenipotente: ele também está sujeito às intempéries) desse hiper-fluxo de melodias, imagens, palavras e contextos. E eis que vemos surgir diante de nós um ser imenso, irresistível, absoluto em sua energia criativa, incitante e efusivo – o ser Hans, o ser Maikon. Ator com clara e consistente pesquisa, juntamente com o grupo Gerúndio, Maikon K é um caso raro (infelizmente) de ator que não se vê apenas como ator, mas como artista, e que conduz ele próprio sua trajetória e suas investigações, sempre se aprofundando, sempre se enriquecendo. Em um deserto árido povoado por atores e atrizes dóceis, que aguardam ingênua e perversamente o convite ou a iniciativa de algum diretor/produtor, que se submetem cega e confortavelmente às vontades do tal diretor/produtor (em uma, de fato, sub-espécie de prostituição), encontrar performers como Maikon K é re-encontrar a esperança na arte, no fazer teatral, no ofício quase heróico do ator. Um ator que assume o seu papel de criador, de pesquisador, e, principalmente, de indivíduo pleno de potencialidades e vitalidade.
Guilhotina é, portanto, avessa a descrições elementares, frias. Guilhotina é espetáculo grávido, como todo espetáculo deve ser. E como tal, exige e se aproveita tacitamente da fertilidade do próprio público. O sêmem e os óvulos gerados e expelidos por Guilhotina fecundam-se no ventre úmido do espectador, que sai da sala de aula também grávido, prenhe de vida, prenhe de morte, prenhe de arte. Só nos resta gestar essa criança, esse ser misterioso e aquoso que agora habita nosso organismo. Para que um dia, quem sabe logo após o parto, destrinchemos a sua carne macia e distribuamos deliciosamente entre todos.



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Aguardem. Tem mais...



Photo by Alessandra Haro


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